A poética da animalidade: leituras críticas da obra “Jaula” de Astrid Cabral

Para o mês de janeiro, a Editora UEA seleciona como livro do mês a obra Das possibilidades do impossível: leituras das animalidades em Jaula, de Astrid Cabral, publicada em 2025, por Jamerson Eduardo Reis. A obra propõe uma leitura crítica, sensível e teoricamente consistente da poética de Astrid Cabral, tomando como foco a coletânea de poemas de Jaula (2006), na qual os animais deixam de ocupar um lugar periférico para se tornarem o centro da reflexão literária e filosófica. O livro estrutura-se em três partes centrais: “Questões de fronteira”; “O Espelho de Pã: figurações e desfigurações do vivente”; e “Bestiários: uma jaula”. Com essa divisão, Reis desenha um percurso teórico que vai da desconstrução das hierarquias humanas/animais até a elaboração de uma nova forma de ler, pensar e sentir a vida não humana.

Questões de Fronteira

A primeira parte dedica-se a desmontar os aparatos filosóficos que, desde Aristóteles a Heidegger, consolidaram a separação entre humanidade e animalidade. Recorrendo principalmente a Giorgio Agamben, Reis introduz o conceito de “máquina antropológica” — um “dispositivo irônico, que verifica a ausência para o Homo de uma natureza própria, mantendo-o suspenso entre uma natureza celeste e uma terrena, entre o animal e o humano […]” (Agamben, 2013, p. 53 apud Reis, 2025, p. 26). Essa ideia explica como o ser humano passou a definir-se pela separação em relação ao animal. Para ser considerado plenamente humano, foi preciso afastar tudo aquilo que lembrasse a animalidade. Assim, o animal nunca desaparece completamente: ele continua presente como aquilo que deve ser excluído. É esse mecanismo que cria um “estado de exceção” no qual o animal é reconhecido, mas não escutado, existindo à margem. Segundo Reis, é justamente esse limite instável entre humano e animal que a poesia de Jaula expõe e questiona.

Um dos pontos mais densos da análise é o diálogo crítico com Martin Heidegger. Reis recupera a ideia heideggeriana de que o animal é “pobre de mundo” (weltarm), cativo de seu Umwelt (ambiente-mundo) e incapaz de se relacionar com o ser. Em contraste, o dasein (o ser no mundo) habita o mundo “aberto”, o espaço da linguagem e da transcendência. Para o autor, essa concepção “relegou ao animal (animalitas) a qualidade do animal exterior” (p. 32-33) e reforçou a “muralha entre vivente (animalitas) e existente (humanitas)” (p. 34-35). No entanto, ele não se limita à crítica, Reis mostra como a poesia de Cabral ocupa justamente o “vazio” criado por essa separação, transformando-o em território de encontro. O poema “Canto de Cisne” é lido como uma tentativa de capturar a phone animal (a voz pré-lógica) que a tradição logocêntrica silenciou. Nele, as cigarras “serram toras ao sol. Torram as horas derramando alarde” (Cabral, 2006, p. 28 apud Reis, 2025, p. 38), e seu canto é uma “ária metálica” que arranha os tímpanos de quem “desaprendeu a escutar” (Cabral, 2006, p. 28 apud Reis, 2025, p. 39). A impossibilidade de traduzir esse canto em logos não é vista como fracasso, mas como abertura para um espaço de “não-razão” (p. 50) onde humano e animal coexistem sem hierarquia.

O Espelho de Pã: figurações e desfigurações do vivente

Na segunda parte, Reis aprofunda a análise dos modos de representação do animal na poesia de Cabral, afastando-se da noção tradicional de metáfora, que reduz o animal a signo de algo humano, e propõe um “fazer metafórico” que reconhece a animalidade em sua alteridade irredutível. Para isso, recorre a Jacques Lacan, mas transforma seu estádio do espelho em espelho de Pã  “— referência à divindade grega da natureza, um híbrido de homem e bode, símbolo panteísta da convergência de todos os seres vivos —” (p. 61), ou seja, um espelho híbrido que não reflete uma identidade humana estável, mas a multiplicidade dos viventes. Esse espelho opera por “refração” (desvio; multiplicação de sentidos) e “reflexão” (reconhecimento de uma subjetividade outra), e é através dele que Cabral constrói o que Igor Fagundes, no prefácio de Jaula, chamou de uma “zoologia aditiva, copulativa, multiplicativa” (p. 64).

A leitura do poema “Cave Canem” exemplifica. O autor mostra que os cães que “uivam em horas de raiva contra as jaulas da cortesia […]” (Cabral, 2006, p. 25 apud Reis, 2025, p. 65) não são símbolos da fúria humana, mas a própria animalidade interna da poeta, que luta contra as amarras do “bom senso” lógico. A solução não é exterminar esses cães, mas “vaciná-los”: “Ladrem mas não mordam e caso mordam, não matem” (Cabral, 2006, p. 25 apud Reis, 2025, p. 66). A vacina é, aqui, o próprio poema — uma forma de deixar a animalidade expressar-se sem cair na violência especista. Como escreve o autor: “ele que, na qualidade de vacina, possui o próprio vírus” (p. 67), ou seja, a poesia, assim, é um remédio que contém um pouco do veneno que cura.

Outro conceito fundamental trazido pelo autor é o “devir-animal” de Deleuze e Guattari. Diferente da imitação ou da identificação, o devir é um “contágio”, uma aliança que transforma sem anular as diferenças. No poema “Encontro no Jardim”, a poeta e a cobra tornam-se “Ambas inquilinas do mesmo solo / Ambas coincidentes no tempo” (Cabral, 2006, p. 52 apud Reis, 2025, p. 89). Reis destaca que:

não há uma metamorfose humano-animal, o humano não se torna animal e o
contrário também não acontece. O devir animal é na verdade menos copulativo
no sentido de produzir outros iguais, homogêneos e mais, segundo os filósofos,
uma “falsa alternativa”, que nos permite instaurar uma lógica dicotômica entre
o “imitar” e o “ser” (2025, p. 87).

Esse devir é, portanto, uma experiência de despersonalização que revela a “voz anfíbia” que habita tanto o humano quanto o não humano. Reis então afirma que a poesia de Cabral, assim, torna-se um espelho que reflete não a nossa imagem idealizada, mas nossa nudez compartilhada com o outro vivente.

Bestiários: uma Jaula

A terceira parte situa a obra de Cabral na longa tradição dos bestiários — desde o Fisiólogo medieval até o Manual de zoologia fantástica de Borges —, mas destaca o gesto crítico que singulariza a obra de Cabral. Reis argumenta que, se os bestiários medievais moralizavam o animal, convertendo-o em alegoria cristã, e se a taxonomia científica moderna o reduziu a objeto de estudo, o bestiário de Cabral é um “bestiário éveo”. Sua função não é classificar, mas “deixar ser”, criando um espaço onde o animal possa aparecer em sua alteridade radical.

Aqui Reis introduz uma das suas contribuições mais originais: a ideia de “cosmo[a]gonia”. Diferente da cosmogonia, que pressupõe uma ordem divina ou lógica por trás do universo, a cosmo[a]gonia é uma ordem que já carrega em si a desordem, o caos, o fim do cosmo antropocêntrico (p. 119). Ordenar poeticamente nesse sentido, não é impor uma estrutura, mas revelar a “desordem original” que nos liga a todos os viventes. O poema “Açougue” exemplifica essa operação: ao descrever a transformação do animal em carne, ele não apenas denuncia a violência especista, mas expõe a “ordem” que torna essa violência possível: “Que fome tão feroz é essa capaz de gerar o massacre de mansos bois, tenras vitelas?” (Cabral, 2006, p. 58-59 apud Reis, 2025, p. 120), pergunta a poeta. A pergunta não tem resposta, mas abre um questionamento no qual o leitor é convocado a refletir sobre sua própria cumplicidade.

Ao final de sua análise, Jamerson Eduardo Reis conclui que a poesia de Cabral, longe de ser um simples exercício lírico, é um “dispositivo ético” que nos força a encarar nossa própria animalidade e a reconhecer a existência do outro para além das grades do logos.

Como o próprio autor sintetiza em suas considerações finais, quando o homem tenta se apropriar do animal apenas a partir de seus próprios termos, o resultado tende a ser uma representação antropocêntrica, incapaz de apreender a alteridade do vivente. Diante dos limites da linguagem, Reis aponta para a necessidade de aceitar o “vazio” como espaço de reflexão, no qual diferentes imagens do animal podem surgir, não como espelhos do humano, mas como aproximações sempre parciais e deformadas do outro.

Das possibilidades do impossível é, portanto, um livro interessante para os estudos da poética de Astrid Cabral e de grande contribuição para os estudos literários, ampliando os horizontes interpretativos da literatura amazônica e brasileira.

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