Uma entrevista com o autor de “Das possibilidades do impossível: leituras das animalidades em Jaula, de Astrid Cabral”

A Editora UEA entrevistou o autor Jamerson Eduardo Reis. Nessa conversa, foram abordadas questões sobre a obra que faz um estudo literário sobre Jaula, de Astrid Cabral, autora amazonense.

De onde parte a inquietação para a pesquisa em Jaula, de Astrid Cabral?

O mais comum nesses casos é que, ao ler a fonte primária, nesse caso a antologia da poeta Astrid Cabral, sejamos confrontados com questões que nos movem ao ponto de tentarmos respondê-las com o auxílio de outras obras. Já a pesquisa que originou o livro teve seu início não exatamente do modo inverso ao mais comum, mas certamente diferente. Antes de ter contato com os poemas de Jaula, li um texto do filósofo francês Jacques Derrida intitulado O animal que logo sou. Nesse texto bastante instigante, Derrida, ao refletir sobre a nossa capacidade de lidar com o pensamento animal, propõe a seguinte tese: “Pois o pensamento do animal, se houver, cabe à poesia” (2011, p. 22). A tese me levou à poesia de Astrid. Nesse contexto, o livro também é uma tentativa de entender como isso pode funcionar, especialmente quando se trata de uma poeta que dialoga tão bem com a filosofia.

Na obra, você apresenta a analogia do espelho, mais especificamente, do “Espelho de Pã”. Pode explorar mais esse conceito e como o relacionou com Jaula?

A ideia do espelho como metáfora literária não é nem de longe original; o que tentei fazer no livro foi reposicionar o espelho para criar alguns efeitos que pudessem auxiliar a leitura dos poemas de Jaula. A ideia de um “Espelho de Pã”, que é referência a uma divindade grega relacionada com a natureza, surgiu da tentativa de pensar o estágio do espelho lacaniano em um contexto em que a superfície do espelho são poemas que lidam com animalidades. Nesse sentido, as reflexões (ou refrações) desse tipo de superfície nos permitem enxergar um pouco mais do que o humano, o que eu acredito ser uma das maiores forças da antologia da poeta.

Em sua obra, é dito que a poesia tenta capturar a voz dos animais (como o canto das cigarras), que não usam palavras como nós. Pensando nessa afirmativa, qual foi o maior desafio ao tentar explicar, no texto, o som e o sentimento dos animais?

Na verdade, eu acredito que não consegui explicar ou formular qualquer pensamento coeso em relação ao que pensam os animais. Isso é, conforme busco defender no livro, impossível. Penso que no máximo ofereci leituras de poemas que tentam lidar com o abismo criado, por nós, entre nós e as outras espécies. São essas leituras que oferecem possibilidades a esse impossível. Pensando dessa forma, o maior desafio foi escrever algo que fizesse jus ao que eu acredito ser uma obra extremamente sofisticada no modo como propõe e contrapõe reflexões sobre as animalidades, as nossas e as dos outros viventes.

Se o leitor sair do seu livro com apenas uma reflexão/inquietação, qual você gostaria que fosse?

Quando tentei pensar em uma resposta, cheguei à conclusão de que a única coisa que eu gostaria de um possível leitor seria o máximo e o mínimo que essa figura pode fazer por um texto: lê-lo. Todas as outras possibilidades repousam nesse gesto. Estendo esse desejo também para a Jaula, de Astrid Cabral. Dessa forma, outras leituras podem enriquecer o diálogo sobre uma autora tão importante para a poesia brasileira.

Por fim, como crítico literário, leitor e pesquisador amazonense, pode indicar alguma obra para futuros críticos e pesquisadores da literatura amazonense?

A quantidade de pesquisas desenvolvidas sobre a literatura produzida no Amazonas só cresceu nos últimos anos, considerando a criação e a consolidação dos programas de pós-graduação na área de Letras. O que significa que os interessados pela ficção ou pela poesia de autores do nosso estado estão bem servidos, bastaria checar a biblioteca ou o repositório digital de uma das universidades públicas amazonenses para entrar em contato com uma grande quantidade de textos sobre o tema. Entretanto, levando em conta meu percurso de formação, gostaria de indicar duas obras que foram muito importantes para que eu pudesse começar a criar uma perspectiva em relação à literatura produzida no Amazonas: a primeira, Poesia e poetas do Amazonas, organizada pelo professor Marcos Frederico Kruger em conjunto com o poeta e crítico Tenório Telles, e a segunda, Amazonas: natureza e ficção, do professor Allison Leão.

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