Para o mês de abril, a Editora UEA indica a obra “História da Amazônia Colonial: narrativas e experiências nos séculos XVI-XIX”, das organizadoras Sarah dos Santos Araújo e Stephanie Lopes do Vale.
A coletânea tem como objetivo central explorar o campo dos estudos coloniais a partir de uma perspectiva alinhada à formação de uma identidade acadêmica construída com base em pesquisas produzidas em universidades da Região Norte. Dividida em sete capítulos principais, a obra propõe novos olhares sobre o período colonial, abrangendo desde as narrativas e experiências de agentes oficiais da Coroa até as populações indígenas processadas pela Inquisição, revelando um universo multifacetado que se estende do século XVI ao XIX.
As divergências na representação cartográfica europeia da Amazônia na segunda metade do século XVI: a presença dos rios Amazonas, Marañon, Maranhão e Orellana
O primeiro capítulo, de autoria de Lucas Montalvão Rabelo, insere-se no campo da história da cartografia e da história colonial da Amazônia, tendo como objetivo central analisar as divergências nas representações cartográficas da região amazônica na segunda metade do século XVI, com ênfase nas confusões toponímicas envolvendo os rios Amazonas, Marañon, Maranhão e Orellana.
O autor estrutura sua argumentação a partir do referencial teórico da “invenção da América” (O’Gorman, 1992; Mignolo, 2007) e do conceito de espaço como produto social (Lefebvre, 2017), afastando-se da noção de “descobrimento” para privilegiar a ideia de construção cultural e política do território pelos europeus. Para Rabelo, os mapas não são registros neutros, mas instrumentos de poder que antecipam e legitimam projetos coloniais.
O texto propõe uma periodização da cartografia amazônica em quatro etapas, concentrando-se na última (1560-1600), caracterizada pela complexificação das representações. As principais divergências analisadas são: (a) a confusão entre os topônimos Marañon (designação castelhana para o rio Amazonas) e Maranhão (designação portuguesa para o rio Mearim); (b) o aumento da toponímia de origem indígena registrada nas expedições de Orellana (1542) e Ursúa/Aguirre (1560-1561); e (c) a ligação fluvial imaginária entre as bacias amazônica e platina, conhecida como “mito da ilha Brasil”.
Os Tarumã, os Manao e o Forte da Barra do Rio Negro nos últimos três séculos e meio: revisitando os paradigmas locais a partir dos registros históricos e arqueológicos
No segundo capítulo, Samuel Luzeiro Lucena de Medeiros inicia sua argumentação recuperando a provocação de Antonio Manuel Hespanha em “Na trama das redes” (2010, p. 74): “[…] Se os colonizadores eram o reino e se os colonizados eram os colonos de origem europeia e sua mesticagem, onde colocamos os nativos?”, para denunciar o apagamento sistemático da agência indígena na historiografia tradicional.
O ponto alto do capítulo é a análise do Sítio Manaus, na Praça D. Pedro II conhecido como “cemitério indígena Manaus”. Medeiros confronta a narrativa tradicional — segundo a qual o fortim teria sido construído sobre um cemitério sagrado do povo Manao — com os dados arqueológicos. As escavações realizadas pelo Projeto Arqueourbs (2002-2003) e as intervenções de 2008 revelaram urnas funerárias associadas às fases cerâmicas Manacapuru (séc. III-IX), Paredão (séc. IX-XII) e Guarita (séc. VIII-XVII). O autor observa que a atribuição etnocultural desses vestígios aos Manao baseia-se exclusivamente no relato do viajante francês Paul Marcoy (1869), sendo, portanto, frágil e passível de questionamento. Sugere, como hipótese alternativa, que os Tarumã, últimos a depositar seus mortos no local antes da colonização, seriam os mais prováveis associados ao cemitério.
A carreira das letras: a comarca como espaço de formação de folha de serviços – as atuações do bacharel João da Cruz Diniz Pinheiro
Stephanie Lopes do Vale, no terceiro capítulo, investiga a atuação dos magistrados régios na Amazônia colonial, tomando como estudo de caso o bacharel João da Cruz Diniz Pinheiro, ouvidor geral da Comarca do Pará na década de 1750. A autora insere sua análise no contexto da administração da justiça no Antigo Regime português, destacando o papel dos ouvidores como agentes centrais da governação colonial, responsáveis por correições, eleições de câmaras, fiscalização de obras e mediação de conflitos. Diniz Pinheiro, elogiado pelo governador Mendonça Furtado, participou ativamente da fundação de vilas como Ourém e Bragança, enfrentando a resistência de missionários jesuítas que disputavam o controle sobre a mão de obra indígena.
O capítulo demonstra como as tensões entre o poder régio (representado pelos magistrados) e o poder missionário contribuíram para a elaboração de políticas indigenistas como o Diretório dos Índios (1755), ao mesmo tempo em que evidencia as estratégias de ascensão social e os mecanismos de negociação que marcavam a cultura política do império português.
Além da fé: estratégias de ascensão social de religiosos na Amazônia colonial
Thiago Gomes Bezerra, no quarto capítulo, analisa o papel dos religiosos na Amazônia colonial portuguesa, indo além da atuação evangelizadora para evidenciar suas estratégias de inserção econômica e ascensão social. Bezerra problematiza a visão que limita os clérigos ao exercício da fé, demonstrando que, no contexto do Grão-Pará setecentista, padres se envolveram ativamente em atividades como cultivo de cacau e cana, criação de gado, comércio de escravos e até advocacia.
O referencial teórico do capítulo ancora-se no conceito de Padroado Régio (Boxer, 2002), que submeteu a estrutura da Igreja à autoridade da Coroa portuguesa, tratando bispos e clérigos como funcionários do Estado. Nesse contexto, a Amazônia colonial representava um desafio administrativo singular para o império português, e os religiosos desempenharam papel central na catequese e no controle das populações indígenas, embora enfrentassem condições materiais precárias, como a falta de côngruas, a deterioração das capelas e a escassez de padres dispostos a estabelecer-se na região.
O amor “condenado”: como a magia amatória foi apresentada à Visitaçãodo Santo Ofício ao Estado do Grão-Pará (1763-1769)
Gisele da Silva Rezk, no quinto capítulo, dedica-se à análise dos processos instaurados durante a Visitação do Santo Ofício ao Grão-Pará (1763-1769), sob o comando do inquisidor Giraldo José de Abranches. A autora examina as práticas de magia amatória — orações, lavatórios, sortilégios e pactos — que circulavam amplamente em Belém do Pará no século XVIII, desvelando uma religiosidade popular marcada pelo sincretismo e pela tentativa de solucionar mazelas cotidianas, sobretudo as amorosas. Como se lê no trecho: “A feitiçaria se imiscuía na vida cotidiana e, caso o séquito da celeste católica não alcançasse seus anseios, principalmente em questões amorosas e conjugais, devotos e, particularmente, devotas procuravam ‘inúmeras alternativas menos ortodoxas’” (Mattos, 2012, p. 164).
Por meio de denúncias e confissões de personagens como João Mendes Pinheiro, Manuel José da Maya, Manuel Nunes da Silva e Maria Joanna de Azevedo, Rezk mapeia as redes de transmissão de saberes mágicos, que envolviam preces a santos (São Marcos, São Cipriano), invocações demoníacas e rituais com elementos da natureza. A autora demonstra que a Mesa da Visita, ao mesmo tempo em que procurava reprimir tais práticas consideradas supersticiosas, acabou por registrar e preservar um valioso acervo documental, permitindo vislumbrar o imaginário, os medos e os desejos da população colonial.
Dimensões e limites do projeto civilizador pombalino
Caroline de Almeida Gaspar, no sexto capítulo, analisa os limites e contradições do projeto civilizador pombalino na Amazônia, tomando como fontes privilegiadas a iconografia produzida durante a Expedição Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira (1783-1792) e o documento “O sistema mais próprio para a civilização dos índios” (1797), redigido pelo governador Francisco Souza Coutinho.
A autora demonstra como o Diretório dos Índios (1757), apesar de seu discurso libertário, manteve os indígenas sob tutela dos diretores, que frequentemente abusavam de sua autoridade. As críticas de Coutinho e de Ferreira convergem ao apontar a corrupção dos diretores e a precariedade das condições de vida nas povoações como causas do insucesso do projeto civilizador. A extinção do Diretório por D. Maria I, em 1798, embora apresentada como uma medida liberal, não alterou substancialmente a situação dos indígenas, que continuaram a ser vistos como seres em “estado de rusticidade”: […] por que motivo pois há de ficar em tutela perpetua, e toda a suas descendências? Por mais rústico que se considere, ele não pode ser mais destituído de conhecimentos do que o é uma criança, e esta com tudo na sua educação tem certo termo, e a mesma jurisdição paternal o tem até aquele que a Lei reconheceu a estabelecer para a maior idade em que inteiramente pode dispor de si, e fica entregue aos efeitos da sua boa ou má índole; boa ou má educação (AHU, cx. 109, doc. 8610).
O capítulo destaca ainda a ambiguidade do olhar de Ferreira, que, ao mesmo tempo em que reconhecia a violência dos descimentos, reproduzia juízos de valor sobre a “preguiça” e a “ingenuidade” dos nativos, em que afirma no trecho “nada convida ao gentio para descer por seu pé”, e enfatiza também que “toda a sua paixão e saudade é pelo mato que deixaram. Ali o apetite animal é a lei dos costumes, ali são naturalmente preguicosos, porque o mato, naturalmente, lhes subministra tudo o de que necessitam” (Ferreira, 2005, p. 134).
Desprezados, mas essenciais: conhecimento e cultura indígena na obra de Alexandre Rodrigues Ferreira
No sétimo e último capítulo, Sarah dos Santos Araujo aprofunda a análise da obra de Alexandre Rodrigues Ferreira, focalizando as tensões entre os saberes indígenas e o conhecimento científico ilustrado. A autora demonstra que, embora os indígenas fossem essenciais para o sucesso das viagens filosóficas — atuando como guias, intérpretes, coletores e conhecedores da fauna e da flora —, seus saberes eram sistematicamente desprezados ou apropriados sem o devido reconhecimento. Araujo analisa passagens do diário de Ferreira em que o naturalista classifica os indígenas como “preguiçosos” e reclama da falta de mão de obra, ao mesmo tempo em que se beneficia de seus conhecimentos para sobreviver e coletar espécimes. Como se observa no trecho: “O meu juízo a respeito da agricultura do lugar é, que o que a terra pode produzir de maniva, arroz, feijão e milho, e ainda de algodão e café, é sem conto, mas que o que de fato produz é muito pouco, porque o trabalho a fazer é muito, e a preguiça muito mais; porque os esforços dos que não são preguiçosos encontram a falta de braços de que necessitam; porque dos pretos, que entram no estado, não se fiam alguns aos lavradores capazes de os pagar, como Vossa Excelência fez fiar, para esta capitania, durante o seu governo, no intuito de promover a cultura e manufatura de anil; porque os poucos índios, que há, são incessantemente distraídos para o serviço das expedições régias; porque os que nelas andam empregados, e nelas desertam ou morrem, não são substituídos por outros novamente descidos” (Ferreira, 2007, p. 37).
Como sintetizam as organizadoras na apresentação, os capítulos percorrem desde o imaginário cartográfico sobre o rio Amazonas até as experiências cotidianas de indígenas, colonos e agentes régios, passando pelas disputas entre missionários e magistrados, pelas práticas de magia amorosa perseguidas pela Inquisição e pelos limites do projeto civilizador ilustrado.
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